Sherry - First One

Ubasute-yama

Por três vezes a sabedoria de uma anciã salvou
a vida das pessoas de um pequeno feudo

     Era uma vez, na região norte do Japão, havia um feudo pequeno e pobre, onde a luta pela sobrevivência era um pesado fardo. Isso levou o senhor feudal a decretar que pessoas que completassem o seu ciclo de vida (60 anos) fossem abandonadas no monte Ubasute-yama – a montanha de jogar idoso.
     O povo estava indignado com o feudatário, mas não podia fazer nada contra sua autoridade.
Distante da cidade, na vila de Sarashina, morava um moço trabalhador e honesto, que cuidava da lavoura e de sua velha mãe. Quando ela completou um ciclo de vida, acabou o sossego do filho. Ele já sabia que era sua obrigação levá-la ao monte e abandoná-la.
– Se tenho que me separar dela, melhor levá-la eu mesmo para aquela maldita montanha. Não quero entregá-la nas mãos daqueles soldados que vão levá-la à força – pensou o moço.

Era noite de lua cheia.
– Mãe, a lua está bonita, vamos apreciá-la da montanha.
     Carregando a mãe nas costas, ele andou o caminho da vila e começou a subida da montanha. Enquanto era carregada, a velha mãe ia quebrando ramos de arbusto e jogando-os na trilha.
     O filho percebeu, mas nada disse. Sabia que a mãe estava deixando sinais para tentar voltar à aldeia depois de abandonada. Numa clareira junto a um velho pinheiro, o filho depositou a mãe. Sabendo que aquela seria a última vez que a veria, ele começou a chorar.
– Perdoe-me mãe... Eu disse que viríamos apreciar a lua cheia, mas eu a trouxe para abandonar-lhe aqui, antes que os soldados do feudatário fossem buscá-la em casa.
– Eu sei, esse é o destino de todos os anciãos da região. Quero que você vá embora e cuide bem de sua saúde. Deixei pequenos ramos de arbustos para você não se perder no caminho de volta.
     Naquele momento, o jovem entendeu o que é o amor materno. Mesmo sabendo que estava sendo abandonada, a mãe só se preocupou com a segurança do filho. O rapaz mudou de idéia.
– Você vai voltar comigo, mãe, não conseguirei deixá-la aqui.
Chegando em casa, o filho cavou um porão e escondeu a mãe. Assim, levava comida e ficava conversando com ela todas as noites.
     Naquela época, a “era das guerras entre feudos”, era comum a provocação entre territórios vizinhos. Assim, um dia, uma carta-desafio chegou do feudo vizinho para o daimyô de Shinano.
– Quero testar a inteligência de seu povo. Será que conseguem fazer um nó de corda com cinzas? Se não conseguirem, preparem-se para uma guerra.
     Fazer um nó de corda de cinzas era uma missão impossível. O daimyô fez várias reuniões com seus conselheiros, mas não encontrou solução. Então, colocou placas por todo território, prometendo recompensa para quem resolvesse o desafio.
     Já que pessoas idosas têm bastante conhecimento, o jovem que escondeu a mãe no porão perguntou a ela se havia uma saída.
– É fácil – disse a mãe – basta untar a corda com sal e botar fogo nela. Com a reação do sal diante do fogo, a corda vai se manter em seu formato sem desmanchar.
     O filho pôs em prática o ensinamento da mãe e, admirado com o resultado, levou a corda para o castelo do daimyô.
     O feudatário ficou impressionado. Enviou a corda para o castelo vizinho e recompensou o moço pela façanha.
     O senhor do castelo vizinho sentiu-se frustrado e ainda enviou mais dois desafios para certificar-se que o povo era inteligente.
     Nos dois casos, a mãe indicou a solução ao filho.
– Você é a pessoa mais inteligente de Shinano. Por três vezes salvou nosso território. Peça o que quiser – disse o daimyô.
– Senhor, foi minha mãe quem solucionou os desafios, e não eu. Meu pedido é que poupe sua vida e deixe-a viver na aldeia.
      Arrependido, o senhor feudal revogou a lei contra os idosos. E, vencido, o daimyô vizinho reconheceu que o povo de Shinano era muito inteligente. Portanto, deveria pensar bem antes de atacá-lo. 

(Crédito das imagens: Cláudio Seto) 


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.

fonte: nippoBrasil


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