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Ihara Saikaku 1642-1693

Ihara Saikaku (1642-1693)

 yo ni sumaba
kike to shiwasu no
kinuta kana

Tradução:
Se tu és deste mundo
Escuta: é dezembro e ao longe
Alguém a pisoar.

     Kinuta é o nome dado a um bloco de pedra ou madeira sobre o qual se batia (utilizando uma maceta de madeira) o tecido cru para amaciá-lo e dar-lhe brilho. Também denomina o próprio ato de bater o tecido. Pisoagem é a palavra em português para este trabalho. Atividade característica do outono e de suas noites alongadas, o som monótono das batidas ouvidas a distância parece nunca terminar. Porém, quando a pisoagem se estende até os últimos dias do ano, pode-se imaginar que há alguém que precisa muito do trabalho, passando as noites em claro para sustentar sua família. Há um acentuado sentido de observação do cotidiano do povo e de suas vicissitudes neste haicai. Saikaku, discípulo de Sôin e da escola Danrin, exorta o leitor, nestes versos dos últimos anos de sua vida, a ouvir o som longínquo das batidas. O kigo é shiwasu, denominação do último mês do calendário lunar, traduzida, com alguma liberdade poética, por dezembro. A estação é inverno.

Hori Bakusui 1718–1783

Hori Bakusui (1718–1783)


A camélia cai –
Passa com uma risada
o monge sozinho.

Tradução:
Ameixeiras brancas —
Assim a alva rompe as trevas
deste dia em diante.

     O kigo deste haicai é tsubaki (camélia), arbusto cujas flores aparecem na primavera japonesa.
     Uma flor de camélia, das dimensões de um punho fechado, cai no chão, fazendo um baque quase inaudível. No mesmo momento, um monge atravessa o local, rindo por algum motivo. A camélia desprende-se inteira do galho. Diz-se que não é apreciada pelos samurais, por lembrar o movimento de uma cabeça decepada. Pela associação com a morte, nunca se presenteia os doentes com camélias no Japão moderno. Quanto à relação entre a passagem do monge e a queda da flor, não há vínculo aparente entre as duas. Entretanto, comentadores japoneses enxergam aí uma  combinação requintada.
     Bakusui foi contemporâneo de Buson, com quem compartilhou o interesse pela volta aos ideais de Bashô, num momento em que o haicai estava ameaçado por baixos padrões poéticos.
fonte:  NipponBrasil
 

Ikenishi Gonsui 1650–1722

Ikenishi Gonsui 1650–1722

kogarashi no
hate wa ari keri
umi no oto

Tradução:
O vento cortante
Assim chega ao seu destino –
Barulho do mar.

      No início do inverno, um vento cortante, gélido e intenso, arranca as últimas folhas da vegetação (daí o nome em japonês kogarashi, ou “o que resseca as árvores”), trazendo desolação à paisagem e aos sentimentos das pessoas. O interesse aqui reside na idéia de que o vento, a soprar entre os galhos secos, continua o seu caminho, até ver sufocado o seu uivo triste pelo rumor igualmente triste do mar de inverno. O subjetivismo da expressão hate ari keri (“chega ao seu destino”) fornece uma tonalidade extremamente atual ao haicai, sendo muito apreciado por poetas modernos. Ao mesmo tempo, pode ser apontado como sua principal fraqueza, uma vez que se trata de uma racionalização, o que, conforme os padrões tradicionais, tiraria a profundidade do poema. Não obstante, o lirismo do autor foi muito apreciado em sua época, a ponto de ele ganhar a alcunha de “Gonsui do Vento Cortante”. Tendo se iniciado no haicai através de Shigeyori, da escola Teimon, Gonsui aproximou-se posteriormente da escola Danrin e conheceu também o estilo de Bashô. O kigo é kogarashi (vento cortante) e a estação é inverno.
fonte:  NipponBrasil

Hattori Tohô 1657–1730

Hattori Tohô 1657–1730


kagerô ya
horo horo otsuru
kishi no suna

Tradução:
O ar tremeluz –
A areia sobre o rochedo
Vai caindo aos poucos.

      O kigo deste haicai é kagerô. Traduzimos esse fenômeno pela expressão “o ar tremeluz”. No dicionário de kigos de Teruko Oda e Goga Masuda, o mesmo kigo recebe o nome de “vislumbre”.
     O sol cálido da primavera faz com que a umidade do solo se desprenda tenuemente na forma de vapor invisível. Devido à refração da luz, a paisagem vista através desse vapor se deforma, emprestando ao ambiente uma sensação de irrealidade. Durante o inverno, a areia úmida sobre o rochedo permaneceu congelada. Com o aumento da temperatura, essa areia se descongela e, aos poucos, esfarela-se e despenca, enquanto o ar à volta tremula como numa miragem. Trata-se da observação atenta de um aspecto sutil da primavera.
     Tohô entrou para a história principalmente por ter sido o editor de um dos principais tratados teóricos sobre a escola de Bashô, denominado Sanzôshi (“Os três livros”), em que relembra as preleções do mestre sobre a arte do haicai.
fonte:  NipponBrasil



Hattori Ransetsu 1654–1707

Hattori Ransetsu 1654–1707


futon kite
netaru sugata ya
higashi yama

Tradução:
Sob o futon
Alguém está dormindo –
Montanhas do Leste.

      Entardece em Quioto. A leste do Rio Kamo, os vales e montanhas estendem-se em direção ao horizonte. Os contornos arredondados e suaves da paisagem lembram a imagem familiar de alguém que dorme, mas de quem só se delineia a silhueta, por estar coberto por um futon (espécie de edredom), peça indispensável ao sono japonês.
      A comparação extremamente coloquial de uma paisagem da natureza com a realidade do cotidiano, inclusive com o empréstimo de um item doméstico, é adequada e divertida e fez a fama deste haicai. Por outro lado, uma interpretação não metafórica, a de que existe realmente uma pessoa dormindo sob um futon aos olhos do poeta, em composição com a paisagem das montanhas, parece não se sustentar, de acordo com vários comentadores.
     O kigo (termo de estação) é futon (edredom, acolchoado japonês), tradicionalmente associado ao inverno. Ainda que utilizado no sentido metafórico, não existindo na realidade, seu emprego sugere claramente a visão das Montanhas do Leste no inverno.
fonte:  NipponBrasil

 

Arakida Moritake 1473–1549

Arakida Moritake 1473–1549


tobi-ume ya
karogaroshiku mo
kami no haru

Tradução:
Voa o papel
Junto às flores de ameixeira –
Primavera dos deuses.

     Ao vislumbrar uma ameixeira no santuário de Ise, Moritake, ele mesmo sacerdote xintoísta, teria se lembrado da curiosa lenda da Ameixeira Voadora (tobi-ume). Sugawara-no-Michizane (845–903), intelectual e político, foi desterrado por causa de falsas acusações. Havia, no jardim de sua casa, uma ameixeira que ele muito amava e à qual dedicou um poema de despedida: “Ao soprar o vento leste,/ Exalem seu perfume,/ Oh, flores da ameixeira!/ Mesmo longe de seu mestre,/ Não se esqueçam da primavera.” Diz a lenda que a ameixeira voou de Quioto até Dazaifu (atual Fukuoka) para reencontrar seu dono. No haicai de Moritake, a expressão “primavera dos deuses” (kami no haru) denota o início da estação em um santuário xintoísta. Também há o recurso ao trocadilho, no qual a palavra kami pode ser lida como “deus” ou “papel”.  Assim, a imagem da ameixeira que voa conduz à idéia da leveza (karogaroshiku) das folhas de papel (kami) que o vento traz junto com as flores, ou à leveza da própria primavera que chega ao santuário por obra dos deuses. O haicai sustenta-se por este trocadilho, servindo como um modelo das técnicas da época.
fonte:  NipponBrasil

Natsume Seibi 1749-1816

Natsume Seibi (1749-1816)  


uo kûfute
kuchi namagusashi
hiru no yuki


Tradução:
Após comer peixe
o mau hálito na boca —
Brilha a neve ao sol.

     O kigo (termo que aponta a estação do ano) neste haicai é a palavra yuki (neve), indicativa de inverno.
    Após uma refeição em que comeu peixe, o poeta percebe, talvez constrangido, que seu próprio hálito tornou-se ruim. Enquanto isso, do lado de fora da casa, o sol ilumina fortemente a paisagem, completamente coberta de neve. Um branco intenso é tudo o que se vê. O imaculado brilho do cenário natural e a impura natureza humana são colocados lado a lado pelo autor, incomodado com a desarmonia. O contraste é desagradável, mas ao mesmo tempo sua percepção é delicada, constituindo-se no atrativo deste haicai.
     Seibi foi um rico comerciante de Edo (antigo nome de Tóquio) que se acostumou a ajudar artistas pobres. Em certa época, foi patrono de Kobayashi Issa, de quem se tornou grande amigo.
fonte:  NipponBrasil

Inoue Shirô 1742-1812

Inoue Shirô (1742-1812)


ooari no
tatami o ariku
atsusa kana

Tradução:
A enorme formiga
Caminha sobre o tatami—
Ah, tanto calor!



     Há dois kigo (termos de estação) neste haicai: ari (formiga) e atsusa (calor), ambos remetendo ao verão.
    Do lado de fora, o sol abrasa quantos passem pela rua. O interior da casa também é quente. Sem ânimo para nada, seu morador se desfaz em suor. Sua única ocupação é acompanhar com os olhos o deslocamento de um ponto negro pelo tatami (esteira de palha de arroz que cobre o chão das moradias japonesas). Esse ponto negro é uma formiga que, por maior que seja, ainda é minúscula se comparada à extensão do tatami.
    Nos haicais clássicos, são incontáveis os exemplos que teminam com a locução atsusa kana, (ah, tanto calor!). Entretanto, este poema é sempre lembrado por ilustrar a técnica do “ponto focal”, isto é, concentrar a descrição em um pequeno detalhe do ambiente. Trata-se do haicai mais famoso de Shirô, médico de Nagoia e discípulo de Kyôtai.
fonte:  NipponBrasil

Haikai

Ao sol de verão,
entre escombros no Haiti ...
Só o cheiro da morte.
 

Haikai

Primeiro de maio –
O cheiro de carne assada
e o grito de gol.